Novo leitor RFID da ThingMagic – Um passo em direção à Internet de Objetos

ThingMagic pode soar um tanto extravagante para uma empresa que produz um dos principais hardwares e softwares por trás dos sistemas de identificação por rádio freqüência (RFID) – máquinas que possuem sérias aplicações no mundo real como rastrear diariamente centenas de milhares de produtos que passam pelas portas dos entrepostos do Wal-Mart e outros centros de distribuição. Mas se você passar algum tempo com os diretores na empresa, dos quais a maioria veio do grupo Neil Gershenfeld de física e mídia do MIT Media Lab à quase nove anos, você perceberá que para eles, a tecnologia RFID é somente a base para algo muito maior: o que eles chamam de “internet de objetos”, onde desde o mais simples objeto ou um dispositivo recebe um tag com uma identificação eletrônica e pode, sem fio, interrogar todos os outros objetos, criando uma imagem em tempo-real de tudo que passe por um determinado espaço.
O mundo, por sua vez, necessitará o que Ravi Pappu, diretor de desenvolvimento avançado na ThingMagic, chama de reality search engine (mecanismo de busca da realidade): uma combinação de sensores e softwares que podem dizer se naquele exato momento você tem elementos suficientes em estoque para cumprir as atividades do dia, ou se todas as ferramentas que você precisará no local de construção estão na caçamba do caminhão, ou quem tem o desfibrilador mais próximo, ou onde você deixou a meia verde. Ainda que a ThingMagic se concentre neste em um primeiro momento em desafios até certo ponto comuns, como fazer dispositivos cada vez menores para leitura de etiquetas RFID, “é a atração gravitacional do ‘mecanismo de busca da realidade’ que me faz levantar de manhã”, diz Pappu.
Em uma dessas manhãs, a ThingMagic deu o mais recente passo em direção ao mecanismo de busca da realidade, com o lançamento de um novo dispositivo chamado Astra. É uma simples caixa quadrada de 26 cm de largura abriga tanto o hardware de computador quanto a antena necessária para a leitura de etiquetas RFID – os quais apenas transmitem a informação armazenada neles quando a energização por rádio freqüência é suficientemente alta – a uma distância de até 9 metros. Projetado para ser instalado em locais fixos em prédios como escritórios e hospitais, o Astra é praticamente do mesmo tamanho do predecessor, leitor RFID fixo Mercury 5, exceto que o Mercury5 exige enormes antenas externas a fim de transmitir energia suficiente e receber os fracos sinais retornados pelas etiquetas RFID. Ao diminuir o hardware leitor e tirando vantagem das melhorias da tecnologia dos tags RFID, ThingMagic foi capaz de reduzir tudo o que é necessário para detectar objetos com tags RFID, em uma caixa não maior que um computador laptop, e alimentá-lo totalmente através de um cabo padrão ethernet.
“Antes, você precisava de muita potência para energizar os tags, e também precisava de muita isolação entre o transmissor e o receptor,” conforme explicou Pappu ao Xconomy. “Seria o mesmo que você gritar com o máximo dos seus pulmões e ao mesmo tempo tentar me ouvir sussurrando a um quilometro de distância. Agora os tags exigem pouca energia, e quando você está transmitindo com pouca energia você pode ouvir melhor você mesmo.”
Você também pode usar antenas menores. Considerando que a montagem RFID que a ThingMagic vende aos armazéns – o antigo Mercury5 mais duas antenas – é alguns centímetros mais largo e mais alto que uma pessoa, enquanto a unidade Astra é tão pequena que “você pode simplesmente escondê-la no teto e ela cria as zonas RFID. Esse é o começo da abordagem do internet de objetos”.
De certa forma pode-se dizer que o Astra é um sinal de que a ThingMagic está retornando às suas raízes no Media Lab, onde Gershenfeld lidera um consórcio chamado “Things that Think”, cheia de idéias para tecnologias, como uma máquina de café que reconheceria seu copo e serviria a sua combinação favorita. Pappu foi um dos cinco PhDs do Media Lab (os outros foram Bernd Schoner, Rehmi Post, Yael Maguire, e Matt Reynolds) que formaram a ThingMagic como uma empresa de consultoria em 2000. No início, a empresa trabalhou muito em tecnologias para outros propósitos, como etiquetas eletrônicas à base de tintas para gôndolas em pontos de venda, que podiam ser reescritas remotamente, e um dispositivo comandado por RFID que ajudavam consumidores a calibrar aparelhos médicos usados em casa, como medidor de glicose.
Mas gradualmente, a empresa se afastou do foco de monitoramento de objetos separados usados por indivíduos e se especializou na gestão de cadeia de suprimento, ou seja, armazenamento e distribuição. Por volta de 2002-2003, o Centro Auto-ID do MIT estava liderando uma mudança global do ultrapassado código de barras para um novo padrão de identificação de produtos, chamado de Código Eletrônico de Produto (Eletronic Product Code - EPC. ThingMagic construiu o primeiro leitor RFID compatível com EPC do mundo, e o licenciou para fabricantes como ADT Sensormatic e Omron, que venderam os dispositivos para o uso em lojas e armazéns.
Em 2004-2005, quando parecia que empresas como Wal-Mart tinham a intenção de reconstruir suas cadeias de suprimento em torno das tecnologias EPC e RFID, a ThingMagic não resistiu a tentação de ela mesma entrar no mundo da produção. Levantou 18,5 milhões de dólares em capital de empreendimento e lançou os leitores Mercury4 e Mercury5, do tamanho de caixas de pizza.
O Wal-Mart realmente comprou diversos equipamentos para seus centros de distribuição. “Eu mesmo instalei alguns, trabalhando por toda a noite nos grandes centros de distribuição, no meio do Texas, onde a meia noite ainda fazia mais de 40°C” relembra Pappu. “Mas foi uma grande experiência. Parte do desafio do RFID é fazer com que isso desapareça no mundo para que nunca se veja novamente. Você somente vai aprender como se faz isso sujando suas próprias mãos.”
Apesar da liderança do Wal-Mart, o mercado da cadeia de suprimento vem se desenvolvendo muito devagar. Muitas empresas ainda têm a logística de rastreamento de produtos que necessitam baseada em código de barras, diz Pappu. E ainda mais, as etiquetas RFID ainda não apresentaram uma redução de preço suficiente para tornar a marcação de cada item economicamente viável. Para continuar viva, a ThingMagic precisou explorar outros mercados.
Isso levou à criação do Mercury5e em 2007. O dispositivo colocou toda potência de processamento e software necessária para comunicação com tags RFID em uma caixa com as dimensões de um cartão de crédito, pequena o suficiente para ser incorporada em outros dispositivos. A Lexmark, por exemplo, embutiu o M5e em uma impressora laser, onde o dispositivo é utilizado para programar tags RFID em papel com etiquetas auto-adesivas. A Ford e DeWalt usam o M5e para o “Tool Link”, um sistema que detalha cada ferramenta etiquetada com a tag RFID que o operário coloca dentro da caçamba das suas pickups.
No começo desse mês, a ThingMagic anunciou que levantou mais 9,5 milhões de dólares para desenvolver mais aplicações para M5e. O Astra é uma dessas aplicações – ele finalmente traz a empresa de volta para o enfoque de rastrear objetos independentes em um ambiente de escala humana e não em grandes centros de distribuição.
Pappu afirma que a tecnologia é completa. “Para criar a rede de objetos, nós precisamos manter a simplicidade na aplicação de tudo isso. O Astra é 10 por 10 (polegadas). O que levou várias horas de trabalho em equipe para instalação, agora leva alguns minutos. Isto permite que os equipamentos desaparecerem na parede.”
A ThingMagic espera que o Astra, que permite leitura de 200 tags por segundo com uma distância de até 9m, seja usado em lugares como instituição de saúde, escritórios de alta tecnologia de TI, ou aeroportos, onde seja possível rastrear tudo desde documentos, equipamentos médicos e bagagens.
Pappu insiste que a ThingMagic não abandonou seus clientes dos centros de distribuição. “O mercado de cadeia de suprimento é enorme e atingir um sucesso nesta área garantiria sucesso à empresa”, ele diz. “Mas isso requer muitas coisas, incluindo uma crítica mudança massiva e alguém deve pagar por isso. Pro isso estamos procurando atingir a internet de objetos. Se aparecer qualquer aplicação na qual possamos utilizar nossos novos dispositivos no mercado da cadeia de suprimento, definitivamente iremos atrás disso. Mas a novidade é levar a adoção de nossos serviços a outras áreas.”
O que não pareceu aborrecer Pappu, na verdade. Ele acrescenta: “se você pegar o espaço e dividi-lo em várias zonas, o espaço nessa região – os dois metros em sua volta – é espaço manipulável. Espaço onde você pode caminhar, digamos, uns 30 metros, é o espaço de movimentação. E então, há o espaço à vista – tudo o que você consegue ver. E há o espaço no qual o Google pesquisa muito bem, que é o espaço extra-sensorial: bibliotecas do mundo todo, discos rígidos.
“Mas há pouca análise que você possa fazer hoje em um espaço manipulável, de movimentação e aquele que você vê. O serviço Google411 é o mais perto do que você pode chegar e na realidade, está no espaço visível. Mas muito de nós passamos todo nosso tempo no espaço manipulável e de movimentação. Se você quiser tornar possível a análise do mundo físico entre você e o horizonte, precisará pegar esta tecnologia e fazer com que ela desapareça nestes espaços. A tecnologia da Ford é um exemplo perfeito, onde você tem um espaço com vários centímetros cúbicos que viaja com você, e então você se pergunta, ‘eu tenho aqui comigo tudo o que eu preciso? ’. Acreditamos firmemente que se ao tornar a RFID menor e mais eficiente, e fazendo com que desapareça no ambiente, habilita diferentes tipos de mecanismos de busca da realidade”.
A outra metade da equação de busca da realidade, claro que é ter certeza que cada item dos espaços manipulável e de movimentação que Pappu comenta, tenha um tag RFID para ser pesquisado – mas isto está se tornando um obstáculo pequeno, agora que empresas como Alien, TI, e Impinj estão gradualmente reduzindo os custos para faixas de 10 a 15 centavos de dólar por tag. A internet de objetos pode de fato estar chegando rapidamente – com um pouco da ajuda da ThingMagic, na parte de busca.
Este texto foi retirado de uma entrevista de Wade Roush realizada com Ravi Pappu para o site Xconomy e publicada no dia 29/07/2008. Pappu é diretor de desenvolvimento avançado da ThingMagic, empresa representada no Brasil pela ACURA Technologies e sua divisão de logística RFIDSystems.
O termo “internet de objetos” é uma tradução aproximada do termo em inglês “internet of things”, usado para descrever tecnologias que faz a internet alcançar o mundo real, composto por dos objetos físicos. Tecnologias como RFID usadas para rastreamento e localização em tempo real de itens com tags inseridos em cada unidade, tornando possível a rede de objetos interligada, ou internet de objetos. Esta é uma tecnologia que apresenta um pano de fundo para uma inter-relação entre o mundo físico e o cyberespaço, algo que ainda está para surgir.